Dormindo com um inimigo?!

Atualizado: 5 de out. de 2020

Fim de tarde, quando todos estão retornando para casa ao término de um expediente, alguns amigos indesejáveis estão apenas começando a sua jornada: os mosquitos. Já prevenido e em busca de “segurança” e um sono tranquilo, você, trabalhador ou dona de casa, pega o latão de inseticida com acrônimo similar a um canal de TV

ou com nome que lembra cemitério e tasca uma dose cavalar no seu quarto, com o mesmo empenho que a senhora cutuca o celular do seu marido. Cuidado, pois você continuará dormindo com um inimigo ainda mais perigoso e silencioso. Você tem o costume de ler rótulos? Não?! Bem, eu tenho e por conta disso descobri que esses inseticidas domésticos para exterminar baratas, moscas, mosquitos, etc, são praticamente todos feitos com agrotóxicos, mais exatamente piretróides, e isso nos traz alguns problemas que tentarei explicar. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas da Fundação Oswaldo Cruz (Sinitox/Fiocruz), mostram que de 2008 a 2012 foram registrados 12.617 casos de intoxicação por piretróides, em sua maioria de crianças menores de 4 anos. São reações alérgicas, como dermatites, asma, rinite, parestesias (sensações de queima, picada, coceira, formigamento, dormência), dor de cabeça, fadiga, salivação, náusea e vômito, tremor, diarreia, irritabilidade e até desmaios; considerando as exposições agudas (aquelas rápidas, dentro de até 24 horas), se levar em consideração as intoxicações crônicas (caudas por exposições contínuas por períodos mais longos) os problemas gerados são bem mais graves. Recente estudo publicado na revista Archives of Toxicology, que pertence ao mesmo grupo da revista Nature, relata aumento de TDAH (distúrbio do deficit de atenção e hiperatividade), autismo e atraso no desenvolvimento infantil. Já em adultos se tem o risco aumentado para o desenvolvimento de leucemia, esclerose lateral amiotrófica, diabetes e alterações no sistema reprodutivo, com diminuição na contagem e na mobilidade de espermatozoides. E atenção às grávidas: os piretróides atravessam a placenta, colocando em risco seu bebê. E como isso ocorre?! O efeito desses produtos é muito extenso, você pode conferir o que falo no livro Ensaios sobre Poluição e Doenças no Brasil (Outras Expressões). Segundo os pesquisadores, ao se medir a concentração de piretróides em ambientes fechados, após desligar aquele aparelhinho de tomada com líquido, a mesma só retornou ao normal após 17 horas de desligado, o que leva a entender que se você usar toda noite, praticamente seu quarto nunca ficará livre do veneno. E se levar em consideração os aerossóis com o mesmo agrotóxico, jatos de 2 segundos são capazes de deixar resíduos significativos no chão e sobre a mesa que, mesmo após limpos com produtos de limpeza, ficam contaminados. Isso explica o porque que tantas crianças se intoxicam, uma vez que passam a maior parte do tempo no chão da casa e a depender da idade, levam tudo pra boca, inclusive a mão. A bula então nem se fala, digna de leitura com lupa de Sherlok Holmes, traz informações imprecisas, contraditórias, que orientam usar em ambientes ventilados, mas recomendam manter portas e janelas fechadas (?!).

E talvez o principal seja a falta de fiscalização e o descumprimento de nossa lei. Segundo o artigo 31 do decreto nº 4.074, de 04 de janeiro de 2002, é proibido o registro de agrotóxicos considerados teratogênicos, carcinogênicos, mutagênicos, que provoquem distúrbios hormonais e danos ao aparelho reprodutor, o que nos faz pensar que o comércio desses produtos deveria ser reavaliado, no mínimo, pelos órgãos competentes (Ministérios da Agricultura, Meio Ambiente e Saúde), já que a ficha de segurança da cipermetrina, tipo de piretróide, descreve que o princípio ativo é mutagênico e que pode causar efeitos no sistema reprodutivo, na fertilidade e na saúde de fetos e bebês em lactação; a exposição a esta substância pode, ainda, ocasionar sonolência, convulsões, tremores, contrações musculares, efeitos nas glândulas salivares e no sistema motor.

Com isso exposto, cabe a nós, sociedade, exigir algum tipo de resposta dos órgãos responsáveis e ter o máximo de cuidado possível com o uso dessas substâncias, retomando ao bom e velho chinelo no combate aos insetos ou a bendita raqueta de choque que perfuma o ar ao abater as moscas ou muriçocas que nos assolam.

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