Manual rupestre


Sempre fui muito curioso e de “bulir” em tudo, mas sempre com a devida “segurança” que toda criança carrega, a desconfiança (essa bate a de qualquer mulher). Me lembro como hoje, meu avô recebendo seu vídeo cassete Mitsubishi (nem só de carro vivem as empresas, principalmente as japonesas), pagos através de um consórcio em “trocentas” prestações. Imperador na sala de casa, ligado a uma televisão Philco, se destacava pelo seu perfil afrodescendente diante do prateado da Tv. Era algo surreal pra mim na época...

Mesmo meu avô sendo pedagogo (curso voltado para o ensino, ou seja, professor), seus sessenta e poucos anos denunciaram que o simples ato de ligar já seria complicado, imagine gravar seu programa favorito?! Como todo bom pirralho enxerido, fiz o óbvio, porém mortal atitude para muitos, me abracei com o manual de instruções... Ô livrinho mágico... Era quase um rótulo de agrotóxico, porém repleto de imagens com o passo a passo de tudo que “magicamente” aquele aparelho poderia fazer com suas 4 cabeças (na época quanto mais cabeças o bicho tinha, melhor, mas se limitavam a 6 nos top de linha).


Devorei aquela “bíblia ilustrada” e comecei a dominar em poucos dias o danado, deixando as orelhas de meu avô similares a de um burro procurando o relinchar de outro.


Aí, me lembrando disso, me veio uma curiosidade de quando era mais novo... Por que os rótulos de agrotóxicos (ou defensivos agrícolas, como queiram) não são assim?! Talvez uma reformulação dos pictogramas (aqueles desenhos no rodapé, similares a pinturas das cavernas) com uma sequencia mais lógica e uma didática a lá “Paulo Freire”?!


Quem sabe não poderíamos diminuir as intoxicações de crianças por beber indevidamente o produto ou melhorar a aceitação do uso da dose correta através de um rótulo mais intuitivo, “lúdico”?


Fica a sugestão para, quem sabe, um dia isso seja testado e vire realidade... Enquanto isso, fico eu morrendo de saudades dos “manuais de instrução” da minha época que muitos não sabem nem que existe. Os eletrônicos estão modernos e intuitivo demais, e não demandam mais de manuais tão detalhados, mas os dos agrotóxicos (ou defensivos agrícolas) ainda precisam evoluir até chegar às pinturas rupestres ou hieróglifos egípcios (aqueles desenhos das pirâmides que quase não se entende nada).


P.S.: O desenho e de minha filha e é um manual de como colocar uma chupeta na boneca, kkk.


*Paulo Melo Segundo é engenheiro agrônomo pela UFRPE, Fiscal Estadual Agropecuário na Adapi e escritor agrodivertido, criando assim o Segundo Agro, um portal de informação simples, direta e humorada.

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