E lá vamos nós!

Atualizado: 14 de ago. de 2021

Quem é da época de 1980, além de já estar sendo vacinado, vai lembrar de um personagem de desenho animado que alegrava nossos dias: o Pica-Pau!


Me lembro de um episódio que teve uma cena que terminou ficando eternizada como meme e tem tudo a ver com o que vamos falar aqui. Lembra da cena clássica de uma bruxa entrando numa fábrica de vassouras e tentando achar a sua vassoura mágica, passando a perna uma a uma, soltando a frase icônica: - E lá vamos nós!?


Vassoura de bruxa, além de ser tema desse desenho e estar associada a transporte de velhas feiticeiras, é nome de uma doença que ataca os pés de cacau e que trouxe enorme prejuízo a nossos agricultores entre 1989 e 2000, tendo se espalhado mais rápido que sua reação pra desligar o leite que ferve e suja o fogão, deixando apenas 25% da produção viva.


Hoje, já convivemos com essa doença controlada, graças à tecnologia, com variedades resistentes, controle mais eficiente com utilização de produtos e manejo mais adequado. Para controlar esse fungo passamos praticamente o mesmo tempo que a bruxa do desenho iria levar para achar a sua vassoura e sumir daquela fábrica.

E lá vamos nós, novamente, ter muito trabalho para controlar um novo fungo, muito pior que a vassoura de bruxa, com uma potência destrutiva similar a do pica-pau em tirar a paciência de quem esbarra com ele. Pense!!!


Esse novo fungo se chama Monilíase do cacaueiro (Moniliophthora roreri), mas que, assim como seu primo Moniliophtora perniciosa, ataca também o cupuaçu, outro fruto de grande valor industrial.


O trabalho da defesa agropecuária (estadual e federal) é enorme e de uma qualidade pouco reconhecida e divulgada. Não é à toa que já conseguimos “mandar voar na vassoura” a traça das pomáceas (acesse aqui), achar controle fácil para a mosca negra dos citrus (acesse aqui), controlar a mosca da carambola, a vassoura de bruxa, o moko da bananeira…


Mas, tem coisas que (só a Philco faz pra você) fogem do controle, por serem naturais e, mesmo com os maiores esforços, é quase impossível evitar: um peido alto e fedorento no elevador; o pão cair com o lado da manteiga virado para o chão; visita de primo chato… Com as pragas não é diferente.

Foi o que aconteceu recentemente no Brasil:

No município de Cruzeiro do Sul, no Acre, que faz divisa com o Peru (o estado faz divisa com a Bolívia também), o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Acre (IDAF) ficou sabendo que esse fungo, primo da vassoura, atravessou a divisa internacional, que é formada por praticamente 200 km de floresta (não tenho informações se foi voando na vassoura) e, quase que magicamente, chegou lá, mesmo sendo previsível, segundo modelos matemáticos.


E aqui quero destacar a magia das redes sociais - não é feitiçaria, é tecnologia (Elisbelt, vou cobrar o merchan e rachar com a Joana Prado). Pode ser um vídeo que viraliza e deixa o cara rico; uma postagem sobre um crime que ajuda a achar o criminoso; ou aquela imagem com texto simples que serve de aviso para um perigo e salva vidas.


No dia 20 de junho deste ano, o pessoal do IDAF-AC postou essa imagem acima no instagram da regional de Cruzeiro de Sul e, 1 hora depois, um cidadão da zona urbana notou algo muito parecido no cupuaçu de seu quintal. Todos da área vegetal do IDAF ficaram com as orelhas mais em pé que as de jumento desconfiado, pois se tratava de uma praga quarentenária ausente (falo disso aqui:) 15 dias após, uma equipe foi deslocada para coletar amostra, torcendo para que a dúvida não fosse confirmada. Mas foi.



Esse fungo se espalha mais fácil que meme de tio que cai no churrasco. Um fruto doente chega a produzir 7 bilhões de esporos e sua forma pulverulenta (tipo um pó) facilita demais que se espalhe por ação da água da chuva ou pelo vento, podendo chegar a 1 Km de distância do local original. Pior que magia negra, ele ataca a parte mais valiosa e nobre do cacau, a amêndoa, deixando o fruto imprestável para indústria e comércio.


Porém, o pior agente disseminador somos nós, humanos. Teimamos em viajar com pedaços de plantas e frutas escondidas ou insistimos em comercializar entre municípios e estados, mesmo sabendo do impedimento em situações como essa. A sede por descobrir ou acreditar que a muda (planta jovem, preste atenção) pode ser de um tipo resistente ao novo fungo vira um comércio negro e paralelo, que aumenta de forma absurda o potencial de se espalhar pelo continente brasileiro.


Já cheguei a falar desse perigo no texto a seguir (acesse aqui). Então, esqueça por alguns instantes nádegas quicantes em dancinhas extravagantes ou aquela viagem do milionário que você segue e acompanha nas redes sociais de defesa agropecuária do seu Estado, mesmo não sendo produtor, para saber de seus direitos como consumidor ou cidadão, para, quem sabe, se tornar uma “celebridade” por descobrir e alertar sobre uma nova praga. Aí você poderá surfar na crista da onda viral, sem ser numa vassoura enfeitiçada.





Imagens: Fiscal Estadual IDAF-AC Igor Figueiredo (@agroigor89)

Colaboração: Fiscal Estadual IDAF-AC Igor Figueiredo (@agroigor89) e Fiscal Estadual ADAB - BA Suely Brito


* Paulo Melo Segundo é engenheiro agrônomo pela UFRPE, Fiscal Estadual Agropecuário na Adapi e escritor agrodivertido, criando assim o Segundo Agro, um portal de informação simples, direta e humorada.



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